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quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Não usei nem abusei!

“Mas que grande porra!”
Foi desta forma contida que reagi ao camarço. Não havia lugar para dúvidas, o meu velho e fiel Ford Capri bordeaux, 1.300 cc de volume de deslocamento de motor e 82 nervosíssimos puro-sangue que nunca me deixaram encalacrado, cincava pela primeira vez - coisas da idade! Por descargo de consciência ainda abri o capot e dei três pancadinhas no motor e duas na bateria, com um pequeno martelinho que trago sempre no porta-luvas, juntamente com um canivete suíço e com um concho pequenino que uma ocasião trouxe de Estremoz. Em vão – como diz o povo “a ignorância é atrevida” – e o Rocinante, obviamente, não reagiu ao estímulo do martelinho.
O dia começara cedo. Tinha-me comprometido com minha tia Amália do Camarnal, mulher de oitenta e dois solstícios cumpridos, assídua frequentadora e contribuinte líquida das sessões de matrafício da Sra. D. Quixota, à Ordem, que estaria o dia inteiro por sua conta e risco. Pois sendo do lado paterno a única tia viva e sofrendo a criatura de problemas de circulação nos membros inferiores, de artrites, de artroses, e uma vez que não tem qualquer meio de transporte ou quem lhe valha, desde o dia em que o Senhor a chamou à viuvez e levou à sua companhia tio Alípio Saragoça, mestre lapidário de gabarito na também falecida Ivima durante mais de quarenta anos, que volta-e-meia requisita os meus préstimos de chauffeur contra o pagamento de uma simbólica propina, um coelhinho guisado com ervilhas como só ela sabe, como nos tempos em que a família inteira cumpria a tradição da espiga e o precioso tacho, preparado pela tia Amália, abafado em jornais e escoltado por uma guarda pretoriana de respeito, rumava ao Tremelgo onde era sacrificado com devoção.
E agora? Se ao menos houvessem transportes públicos… A ideia passou-me pela cabeça quase como o flash dum kodak disparado de sítio indeterminado, surpreendendo-me tanto pela forma como me ocorreu quanto pelo lapso em que se esfumou. Nunca me assaltara tal pensamento. Mas também nunca me tinha visto privado de transporte, verdade seja dita. Bom, avancemos para o plano B: talvez o vizinho Zé Silvestre me empreste o Boca de Sapo. Dirigi-me apressadamente para a casa do lado, ainda mal refeito da partida pregada pelo Rocinante, quando reparo que na estrada passava, circunstancialmente, um mini-bus vazio, ostentando a enigmática frase “Use e Abuse”. Tomei a coisa como uma coincidência. Há coincidências do catano.
“É pá, infelizmente não te posso emprestar o carro. Vou às pinhocas a Pedreanes com a Isilda e depois sigo p’rá Vieira. O meu pessoal está de férias e a minha nora ligou a convidar para lá ir-mos comer umas sarguetas que o Sérgio tirou hoje de madrugada. Mas se quiseres posso-te emprestar a Casal de duas”. Foi desta forma que Zé Silvestre correspondeu solícito ao meu enrascanso e que parti ligeiro, já com os ponteiros para lá do aprazado, com destino à Rua Sociedade de Beneficiência e Recreio 1º de Janeiro.
D. Amália aguardava-me impaciente no patim, envergando farpela domingueira impecavelmente engomada. “Táva a ver que não vinhas”. As generosas camadas de pó de arroz e o cabelo penteado em forma de abajour, num claro desafio às leis da gravidade, denunciavam as expectativas que a octogenária punha nestas saídas com o seu único sobrinho a quem carinhosamente apelidava de “o meu preferido”. Quando olhei para a bengala e para a saia travada senti um arrepio na espinha - como é que raio vou fazer subir titia para a motoreta? Não havendo grua por perto, recorri a seis milagrosos tijolos dispostos em forma de escada. Por entre gemidos e um rosário infindável de “ai Jesus” lá consegui empoleirar D. Amália no motociclo que de imediato arreou. Quem também arreou foi o magnífico penteado de titia, o qual claudicou sob o peso do capacete integral que lhe coloquei na cabeça. “Mal empregados os nove eurios que paguei à Rosete da Pedra p’ra vir cá a casa toucar”, suspirou. “Paciência, a segurança está em primeiro! Um dia destes levo-a à Dinora”, argumentei eu tentando confortá-la.
D. Amália inteirou-me do itinerário cuidadosamente delineado na sua cabeça há já alguns dias: posto médico, para “medir a atenção” e dar dois dedos de conversa na sala de espera; loja das flores para comprar um ramo de “malmiqueres” para a campa de Alípio Saragoça, mestre lapidário; cemitério de Casal Galego para depor as flores e chorar uma Avé-Maria e um Pai Nosso por alma do finado; e por último “Comprativa do Povo” para adquirir um estendal em alumínio, “dos bons”. Fiquei sem fôlego e com o GPS a zunir. Não há-de ser nada. Confortou-me a ideia de saber que a pobre senhora sem a minha ajuda não iria nem tão pouco à sede da Ordem.
Evidenciando manifesto excesso de carga, o motor prestes a entrar em colapso e os pneus a suplicarem por oxigénio, lá arrancámos nós para cumprir o road-book, já passava das oito e meia.
Tirando a espinhosa tarefa de fazer subir e descer titia da motoreta, as primeiras três etapas foram cumpridas com sucesso, sem percalços de maior e dentro da hora prevista. A Casal de duas é que não parecia conformada bufando e gemendo todo o tempo, o que não augurava nada de bom. E confirmou-se! Cumprida a quarta etapa e após a odisseia de arrumar D. Amália e estendal de alumínio no motociclo, volvidos trinta a quarenta metros, mesmo no cruzamento para a Chinha’s Clinic, vários estampidos seguidos de um monumental estrondo. Flatulência de titia, ocorreu-me. Mas de imediato afastei a ideia ao sentir a motoreta a desfalecer e ao ver sapatos e calças cobertos de óleo de motor, enquanto D. Amália soltava um urro de pânico acompanhado de semi-desmaio. Apenas me deu tempo de lhe deitar a mão. “Acalme-se tia que foi só a mota que espichou”, exclamei eu dominador, tentando em esforço simultaneamente equilibrá-la e colocar-lhe um comprimido debaixo da língua. Só então me apercebi da dimensão do drama: titia apresentava sintomas de pré-ataque cardíaco, a motoreta dava entrada directa no SAP do Rosas, do outro lado da rua, e o estendal de alumínio (“dos bons”), evidenciava sinais de maus-tratos e de negligência. Estava de novo a pé, aliás, estávamos! C’um raio!...
Recobrado o ânimo, mas com D. Amália ainda meio zonza, deitei contas à vida e avaliei a situação. Eis que novo flash me invade os neurónios em sobrecarga - se ao menos houvessem transportes públicos… Nem por acaso. Nesse preciso momento vejo surgir vindo do lado do Operário um mini-bus vazio ostentando a patética frase “Use e Abuse”. Tomei a coisa como uma afronta.
E agora o que é que vais fazer Relaxoterapeuta? Matutei, matutei e de súbito fez-se luz. Recordando o que uns dias antes lera sobre um avençado da Ajunta, exclamei: “Titia, quem nos vai safar desta é o Sr. Chico!”. Dito e feito. Afinal D. Amália conhecia-o de pequenino e ao nosso pedido de transporte para o Camarnal o senhor respondeu prontamente pondo-nos à disposição o único veículo disponível no momento, uma bicicleta equipada com um suporte traseiro. Agradeci delicadamente e comprometi-me que ao devolvê-la limparia o pó do edifício da Cambra e removeria as teias de aranha que por lá pululam. Perfeito, pensei eu quase a desesperar mas sem dar parte de fraco – “a cavalo dado não se olha o dente”.
Com a ajuda do próprio Sr. Chico e de mais dois funcionários, ou avençados (p’ró caso não importa), acomodámos titia e respectivo estendal no suporte traseiro da ginga e lá voltámos a partir - eu já só queria chegar depressa ao Camarnal.
Rua D. Dinis abaixo, temendo que a malapata ainda nos acompanhasse, jurei à Sra. da Piedade que por ocasião das próximas festas lhe acenderia uma vela pelo pelouro dos transportes e carregaria com pundonor o Pálio, mais o Piriquito. Só que a Santa não estava para aí virada, vim eu a perceber depois.
Pedalando corajosamente transpus a Praça Stephens deserta e meti pela Infante Dom Henrique em direcção às Portas Verdes, sentido a corrente ranger a cada impulso de pernas. “Está-se a aguentar titia?” perguntei eu arfando. Titia já quase nem respondia, o incómodo da viagem toldara-lhe a fala, mas não a razão. “Ouve lá, quando é que resolvem isto do mercado?” questionou ela quando lhe passávamos ao lado. “Está calor” respondi eu chutando p’ra canto e descarregando na roda pedaleira os nervos que a pergunta me causara. Face ao ímpeto imprimido, a corrente balançou, vibrou, entrou em tensão incontida e quebrou, provocando uma pedalada em falso. O estendal perdeu o equilíbrio, a bicicleta entrou em descompensação, titia em perda de sentidos e eu bati com os tomates no quadro. Nova corrida nova desgraça. Enfim! Tirando as escoriações do tombo, podia ter sido bem pior não fora ter obrigado D. Amália a manter o capacete integral a quando do início do troço de bicicleta.
Bem, já faltava pouco mas na prática voltava tudo à estaca zero – se ao menos houvessem transportes públicos… a porra do flash disparara novamente dentro da minha cabeça. Que raiva! Mas há coisas que só visto e o improvável aconteceu. Vindo do lado da Portela surgiu um mini-bus vazio, ostentando a provocadora frase “Use e Abuse”. Tomei a coisa como uma ofensa.
O que me restava? A algazarra do acidente aglomerara em torno de nós um pequeno magote que incluía alguns pedreiros de uma obra contígua. Entre eles estava um rapaz que me conhecia, mas que eu não reconheci. Tratava-se de um sobrinho da Lurdes Rata, a minha mulher-a-dias, que se prontificou a emprestar-me um “veículo de transporte”. Agradeci e aguardei perto dos tapumes, enquanto umas senhoras amparavam titia. Passado uns segundos aparece-me o rapaz todo sorridente com um carro de mão. Não consegui reagir…
E foi assim, sem brilho nem glória, que percorri o troço final e que entrei esfalfado e dorido no patim da casa de tia Amália, empurrando o carrinho de mão - ora cá estamos! “Graças a Deus, filho!” respondeu titia de dentro do carro de mão, de capacete integral, descomposta e exausta. “Graças a Deus chegámos vivos!”

9 comentários:

Anónimo disse...

Brilhante!

UmVigilante disse...

Excelente texto.Humor cortante de quem conhece muito bem a sua terra, os seus costumes, as suas gentes.
Estes Mini-Buses, o Use e Abuse, a TUMG que morre porque os politicamente moribundos que des,governam o Concelho, não sabem fazer,antes sabem fazer morrer. É a TUMG, é o Mercado,é o Comércio, é a Industria,são os apoios escolares, é a falta de apoio aos clubes,etc.etc.etc.,até quando????? Excelente texto, Relaxoterapeuta. Será que a "Cambra" o compreenderá????

Pirolito disse...

Meu caro Relaxoterapeuta,
Só tenho um modestíssimo comentário a fazer:
Creia que chocalhei tanto de saudável riso que o gás me fez saltar a tampa!
É preciso imaginação à carrada e humor sem limites...
Obrigado por tudo isto e pela excelente caricatura.
Um gasoso muito obrigado.
Pirolito

Anónimo disse...

SIMPLESMENTE EXCELENTE.
IMPRIMAM-SE PANFLETES PARA FAZER CHEGAR A TODOS OS MARINHENSES.
UM BEM-HAJA AO AUTOR

Anónimo disse...

Se este senhor deichasse de escrever estas coisas sem interesse no meu ver e fizesse alguma coisa sem ser diser mal dos outros é que fazia o seu papel, porque á muito para fazer. De cantigas andamos nós fartos. Estou até a imaginar que depois pede aos seus amigos para o elevarem, são sempres os mesmos pirolitos à apajá-lo, e companhia, a vir dizer bem dele como se fosse um iluminade.
Trabalhem para o bem de todos e menos conversa. Deêm ideias e sugestões que é isso que se precisa.

odor marinhense disse...

A linguagem e os erros cheiram a alpista gaulesa

Mestre escola disse...

Não sei de quem se trata, nem me interessa. Agora de uma coisa tenho eu a certeza, este anónimo deveria começar pela 'Cartilha' de João de Deus.

Anacrónico disse...

A propósito do comentário do anónimo ortográficamente disléxico...
Incentiva-nos (e quase nos invectiva!) a anónima criatura a sermos, nós os que ‘bitaitamos’ neste Fórum, mais construtivos e menos críticos!
Que me perdoe o anónimo em causa, mas suponho que não tem estado minimamente atento ao que se escreve e comenta aqui.
De facto, e em boa verdade, por várias vezes aqui têm sido feitas importantes sugestões que, salvo mínimas em honrosas excepções, pouco ou nada têm sido tomadas em conta!
Nós próprios já as fizemos algumas vezes e não nos chegou ao conhecimento que alguma delas tenha tido um ‘feliz destino’...
É certo que se faz mais crítica negativa que positiva. Mas, gostaria eu de perguntar ao tal anónimo: não acha que a atitude autista deste executivo da Cambra justifica tal estado de coisas?
Ora vá lá... acredite que ainda não detectei um único participante neste Fórum que não estivesse (esteja) interessado no desenvolvimento do nosso concelho.
Infelizmente a inoperância desta Cambra e a sua gritante falta de projectos para a nossa terra, leva-nos a andar, a todos, MUITO apreensivos!

Anónimo disse...

O problema para alguns anónimos roxos de raiva ( ou será vermelhos), é que nem sequer sabem apreciar um excelente texto, abstraindo-se do seu dogmatismo partidário e muito menos têem capacidade de encaixe para entender o óbvio.
A TUMG foi assassinada e enterrada, por vontade expressa de um vereador do PSD, contra a vontade da maioria dos vereadores, contra a própria vontade do Presidente e contra a vontade expressa da Assembleia Municipal, PSD incluido, que queria ver a situação mais bem estudada e esclarecida.
A ALIANÇA PSD/PCP falou mais alto e o durão do JBD capitulou perante o Artur Auto-Colante
Paz à sua alma.