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sábado, 27 de novembro de 2010

Intervalo (13)

2 comentários:

Rogério Pereira disse...

e quando se quiser dar alma a uma cidade, empunhe-se uma guitarra...

Vinagrete disse...

ENTRE O CORAÇÃO E A RAZÃO
Há mais 30 anos, no meu carro, com despesas de minha conta, desloquei-me a Lisboa para trazer para a Marinha Grande este virtuoso artista e resistente anti-fascista e a sua companheira Luisa Bastos.
O Pavilhão do clube da Embra estava cheio. A acústica era horrível. Mas ouvir, algum tempo depois da alvorada de Abril, os acordes de uma guitara e a voz de um povo que luta e teima em manter a esperança, era suficientemente reconfortante.
Por o ter revisitado, através deste post e talvez porque o Orçamento foi aprovado, apeteceu-me escrever, para tentar partilhar estados de alma que nos deprimem e amordaçam o grito que queremos dar, mas as cordas vocais teimam em o impedir.
Carlos Paredes, Zeca Afonso, Adriano, Fausto, Vitorino, José Mário Branco, Ary dos Santos, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho e tantos outros, cantaram-nos um Portugal de miséria, atrasado décadas, orgulhosamente só, fechado, pobre, sem educação, em que as crianças da minha terra iam levar acima, nas fábricas de vidro, aos dez e doze anos de idade, muitas delas ainda transportadas ao colo pelas mães. Um País onde se ia preso, sem julgamento, por um qualquer pide se lembrar denunciar alguém que se manifestava contra o regime. Um País que mandava para uma guerra colonial os seus filhos mais jovens e promissores. Um País sem cobertura escolar para o Preparatório e Secundário, o que fazia com que a grande maioria dos jovens se ficava pela 4ª. classe, deixando para as classes sociais mais altas a faculdade de poderem estudar nas capitais de Distrito e mais tarde, em Lisboa, Porto e Coimbra. Um País sem vias de comunicação, sem electricidade em grandes parcelas do território Nacional, sem água canalizada, sem esgotos e sem dignidade.
Este País, que é o nosso, era também o que tinha as contas públicas em ordem e os cofres do Banco de Portugal a abarrotar de ouro.
É o mesmo país onde viveram os João Salgueiro, os Mellos, os Ferraz da Costa e tantos outros, que agora, usando a liberdade que Abril nos restituiu, consomem horas de tempos de antena a reclamar a destituição do governo, este ou outro, alegando que nós o "Povo", não eles os "parasitas", gastámos mais do que produzimos, temos um estado social que não conseguimos alimentar e uma legislação de trabalho demasiado rígida ( entenda-se que ainda não permite os despedimentos a gosto).
Nasci na década de 40, comecei a tarbalhar aos 14 anos, tive que emigrar com a fmília aos dezasseis, só tinha acesso aos hospitais com atestado de pobreza, só existia uma auto-estrada com 20 Kms entre Lisboa e Vila Franca e a Ponte entre as dua margens do Tejo iniciou-se na década de 50.
De Lisboa a Leiria demoravam-se 6 horas num carro acessível à classe média.
Era esse o nosso País sem dívida externa e com descomunais reservas de ouro.
O Portugal de hoje, o dos meus filhos e o dos meus netos é outro.
Temos dificuldades? Desbarataram-se alguns recursos? Há pouca transparência nalguns actos da acção do Estado?
Sem dúvida.
Vivemos em democracia, saibamos usá-la para tentar recrificar o que vai menos bem, mas tenhamos a capacidade de comparar o Portugal que fomos, ovelha ranhosa da Europa democrática e o Portugal que somos.