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sábado, 29 de maio de 2010

Uma Nesga de Oportunidade

Inspirado pelas mais profundas, insuspeitas e genuínas preocupações, do Senhor Presidente da República Portuguesa, do Senhor Primeiro Ministro, do Senhor Ministro das Finanças, do Grupo dos Antigos Ministros das Finanças, dos Alunos de Apolo, dos três pastorinhos, do metalúrgico Jerónimo, e vigilantemente atento aos inquietantes sinais dos mercados, ao raspanete da angélica Merkel e às mais recentes sessões sado-porno da Standard & Poors, da Moodys e da Fischer, tudo em horário nobre, aquiesci e entrei em meditação transcendental, procurando no ronco das vuvuzelas e no discurso redondo dos insuflados mundialistas, já coroados de pré-campeões, a resposta para as minhas inquietações e mais para as angústias do Folha Seca.
Apesar do aparato da intricada equação e de toda a disponibilidade a que me predispus para a dita meditação, a verdade é que a conclusão final não demorou mais de um frame, uma flashada de polaróide – “Rapaz, o buraco é tal que nem a Sondalis tem capacidade para perfurar tão fundo. Estamos literalmente quilhados se não mudamos de rumo e a responsabilidade, por acção ou omissão, é geral! Ah pois é!”. Pacífico.
E ainda o flash não se esfumara, como digno descendente da turba de desenrascadinhos que habita há oitocentos anos, e de forma por vezes bastante dolosa, o extremo ocidental do velho continente, já me ocorria a solução mais rápida e eficaz contra os problemas crónicos da falta de liquidez e do desvario despesista do reino. A célebre e premonitória frase do Botas, grunhida em Maio de 61, ressoou na minha cabeça como um trovão - “Para Angola e em força!”. “Somos uns revivalistas dos caraças” – pensei eu. Afinal de contas, e apesar de tantos séculos de cabeçadas no tijolo, a solução não tem sido sempre a mesma, pergunto eu? Expulsámos os mouros e apropriámo-nos da sua tecnologia, fomos sacar as especiarias à Índia, gamámos o ouro, o Deco, o Pepe e o Liedson ao Brasil, o Eusébio a Moçambique, fanámos os fundos comunitários à Alemanha e à França, a vuvuzela aos zulus, e por aí adiante. Nosso, mesmo nosso, só estou a ver aquela padeira que vivia na zona da Batalha e o inefável Mourinho. Bem, mas, verdade seja dita, até mesmo o Mourinho teve de ir gamar o nome aos berberes e a determinação dos campeões ao Olimpo. Afinal, de genuíno, genuíno, só temos mesmo a padeira -concentremo-nos por isso na determinação da padeira e esqueçamos por momentos o Estado gorduroso, o Estado que frita em lume forte na sua própria banha, queimando-nos de forma desleixada com salpicos de unto fervente, inflingindo dor e sacrifício aos rapa-o-tacho.
Ponto de ordem à mesa: afinal de contas, ontem, tal como hoje, o problema é de sobrevivência e de independência, diria mesmo, de LIBERDADE. Porque não “temos”? Não! Simplesmente porque não “somos”, porque nos recusamos a “sermos”. E é aqui que, citando o nosso vizinho e deputado carteiro, eu vejo uma “nesga de oportunidade”. O apelo que uma vez mais aqui faço à massa cinzenta, ao esforço e à vontade, tem tanto de inocente como de autêntico. Podemos de facto não “ter”, mas podemos seguramente “ser”, pois tudo o resto virá por acréscimo. Toda essa nesga que vislumbro para nos livrarmos da aflição sustentada dependerá de nós e da maneira habilidosa como soubermos encarar o futuro e manejar a pá do forno que a valente padeira nos deixou testamentado. Haja por isso a coragem de enfrentar os nossos próprios medos e limitações, ideologicamente entranhadas por anos e anos de rangomango e de indiferença desleixada. Façamos por uma vez o exercício simples de querer de forma consciente o melhor para todos.

Foi por tudo isto, por imperativo de consciência e por querer tomar a minha parte nas dores da resolução do problema, que chamei ao Casal da Formiga a Lurdes Rata, a minha mulher a dias, para lhe transmitir de viva voz, com a gravidade própria do momento mas com uma centelha de esperança no olhar, as medidas de austeridade que decidi eu mesmo adoptar: “Lurdes, quero que saibas que te considero muito e que és para mim como família. Como sabes vivemos momentos de dificuldade e depois de muito pensar decidi que vou ter de cortar no que te pago à hora, um esforço a bem da nação e que espero que compreendas”. Lurdes Rata, que não é mulher de se ficar, fixou-me de frente com raiva e com voz rude soltou -“e sabe que mais? Passe você as camisas a ferro e vá barda-merda mais a crise!”
“C’uma porra” - pensei eu tentando recompor-me, lá voltei a ter uma recaída neo-liberal de pequeno-burguês. Volta e meia está-me a acontecer. Tentei contudo consolar o ego com a costumeira saloiice – será um problema de comunicação? Será que não fui capaz de fazer passar a mensagem? Só pode…

16 comentários:

Sancudo disse...

Parabéns Sr. Relaxoterapeuta!
Assim é que se escreve! Bem pr'a caraças.
Bom fim de semana a todos.

Anónimo disse...

Só tenho um pequeno comentário.
Excelente, adorei. Continue por favor.

Anónimo disse...

A resposta "da mulher a dias", deveria ser a que todos nós poderíamos e deveríamos dar... a quem nos desgoverna!

Rogério Pereira disse...

Pode aparecer mais vezes caro Relaxoterapeuta!
Aqui no Largo
Sou eu mais assiduo a comentar
do que o meu amigo a postar...

Abraço

PS - Pergunte ao Folha Seca se sempre foi à manif (se faz favor, claro)

Acintoso disse...

Para mim, dizer que os textos do Relaxoterapeuta são verdadeiras obras de elaboração literária e de lucidez de pensamento, já soa, quase, a lugar-comum.
Mas assim os considero, de facto, posto que lhes reconheço mérito!
Cada palavra no seu sítio, cada ideia no lugar próprio numa articulação de pensamento sempre clarividente e oportuna.
De facto, e malgrado todos podermos estar na situação de uma ou outra recaída neo-liberal, é muito bom que tenhamos em conta que a reacção da Lurdes Rata é a que deveremos ter...

Júlio R. disse...

Se este sujeito relaxado não se escondesse cobardemente atrás do anonimato, eu até podia dar alguma importância aquilo que escreve, mas assim só vejo verborreia. É o cinismo de quem tem grandes responsabilidades, diz uma coisa e faz outra, mas como "não se sabe quem é", está tudo bem.
Ó homem, calesse e ponha a mão na consciência. Pelo menos tenha a coragem de assumir o que diz...!

Anónimo disse...

Olha-me este de onde é que saíu?

Então o Parvalhão não sabe que neste mundo o usar um nickname é comum. Será que Julio R. identifica alguem eu por acaso até conheço um Julio R. Com pinta para escrever isto, mas esse é o Julio M.

Júlio R. disse...

Ao anónimo anterior:

não ofendi ninguém e o meu nome é Júlio. Se não gostou do que escrevi, embrulhe! Parvalhão não sou eu, parvalhão é quem não aceita o que os outros dizem. Ou está em condições de provar que não é verdade o que eu disse ou então cale-se. O anonimato é um acto de cobardia...!

Anónimo disse...

"Se este sujeito relaxado não se escondesse cobardemente atrás do anonimato, eu até podia dar alguma importância aquilo que escreve, mas assim só vejo verborreia".

De facto só um Parvalhão podia escrever isto. Seja Julio ou qualquer outra coisa...

Borras disse...

O anonimato é cobardia e é a arma dos fracos.

Acintoso disse...

Pois é, o anonimato é a arma dos fracos.
Já um Júlio R. ou um Borras são nomes que identificam malta com muita coragem!
Ele sempre há cada marmelo!...

Anónimo disse...

Mas quem é este Júlio R.?

Anónimo disse...

E quem é este Relaxoterapeuta?

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

A comunicação está muito difícil. A Lurdes Rata, se não organizou uma manif imediatamente,é porque não percebeu a mensagem. Pior para ela...

Flor do Liz disse...

Isto no Largo está mau. Estes calhandreiros zangam-se com muito facilidade.
Não sei se o Sr Relaxaterapeuta é covarde mas, que escreve muito bem, isso escreve e não estou a ver o ser Júlio M a escrever tão bem, estou a vê-lo a fazer outras coisas, mas escrever...

redonda disse...

:) Não se percebe realmente como é que ela não percebeu a mensagem :)

(vim até aqui pelo link do Crónicas do Rochedo e vou aproveitar para ler um pouco mais do que está para trás)