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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Revista de Imprensa (actualizada)

Marinha Grande
De capital da indústria do vidro, quase só resta o museu


Fábrica-Escola Irmãos Stephens, Manuel Pereira Roldão, J.F. Custódio e Ivima. Estes são alguns dos nomes que ao longo de várias décadas estiveram na génese do sucesso da indústria vidreira na Marinha Grande e que deram ao concelho o estatuto de capital do vidro. Foi, também, com aqueles nomes que se escreveram os momentos que marcaram o declínio deste sector, que tem no Museu do Vidro parte da sua memória.

"Hoje, a Marinha Grande, embora continue muito ligada à indústria do vidro, e continue a ostentar com orgulho o título de capital do vidro, mas a realidade é já bastante diferente do que era há 50, 100 ou 200 anos", admite o presidente da Câmara Municipal, Alberto Cascalho.

O autarca reconhece que "a cristalaria manual tem vindo progressivamente a desaparecer", mas destaca que o vidro de embalagem, as garrafeiras, se tem afirmado.

"São unidades que do ponto de vista tecnológico estão bem apetrechadas e constituem hoje três principais baluartes em termos de emprego", afirma Alberto Cascalho.

A coordenadora da Zona Centro do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira (STIV), Etelvina Rosa, acrescenta que "são poucas as empresas da indústria vidreira que realmente resistem" no concelho.

Além das três garrafeiras, com um total de 1.200 trabalhadores, a sindicalista aponta uma unidade de produção de vidro automático e outra de vidro científico, a que acresce uma empresa de vidro manual.

"É manifestamente pouco", comenta Etelvina Rosa, apontando números que indicam que o sector perdeu, na última década, 1.200 postos de trabalho.

Parte desses trabalhadores tiveram como destino o Centro de Emprego local.

"O desemprego na Marinha Grande começou a sentir-se fundamentalmente no sector do vidro e, em particular, na cristalaria manual", anota o director do Centro de Emprego, Álvaro Cardoso, adiantando que "desde 1985 o volume do emprego no sector da cristalaria tem vindo a emagrecer substancialmente".

"No vidro manual não deverão ir além das duas centenas, sendo muito optimista", afirma Álvaro Cardoso.

A responsável do STIV diz no entanto que não é por esta razão que a Marinha Grande deve perder o estatuto de capital do vidro, alimentando uma espécie de regresso ao passado, ao mesmo tempo que se mostra crente na reactivação de unidades fabris de que, nalguns casos, apenas restam as paredes de um edificado que resiste ao tempo.

Opinião contrária tem o director do Centro de Emprego. "Do ponto de vista económico, de viabilidade deste sector, os exemplos que temos não nos auguram grandes esperanças a esse nível", refere Álvaro Cardoso, que antevê o futuro da cristalaria manual como uma arte mas não como uma actividade profissional.

"Penso que vão prevalecer sempre artesãos, mestres, interessados em perpetuar esta arte, mas do ponto de vista da arte e não em termos económicos", esclarece.

"Não acredito que fiquemos só com o museu", responde a sindicalista Etelvina Rosa, que lembra a importância do vidro.

"A Marinha Grande e o País não gostariam, naturalmente, que no futuro um sector tão importante como é este da cristalaria tivesse representação apenas como uma memória do passado, nomeadamente através do Museu do Vidro", diz, por sua vez, o presidente da Câmara Municipal.

Alberto Cascalho observa que este "é um sector histórico que tem prestigiado o País e a indústria nacional e que merece alguma atenção da parte do Governo", nomeadamente a "disponibilização de apoios e de medidas que permitam recuperar aquilo que foi sendo perdido".

O Museu do Vidro, instalado no Palácio Stephens, completou dez anos em Dezembro passado, data assinalada com a inauguração do espaço das reservas museológicas.

Propriedade da Câmara Municipal, o museu inclui peças concebidas pelos artistas vidreiros da Marinha Grande, representando igualmente alguns dos momentos mais marcantes desta indústria, que se instalou no concelho há cerca de 250 anos.

A exposição permanente, que se divide por dois pisos, contempla as peças mais significativas da colecção de vidros de cristalaria, de produção industrial, e elementos relacionados com aspectos tecnológicos da produção de vidro.

A transformação do espaço em museu nacional do vidro e a sua integração na Rede Portuguesa de Museus são dois dos objectivos da autarquia.


(surripiado do DN Madeira)

8 comentários:

Vidreiro disse...

É a realidade nua e crua !!

O nivel empresarial do sector da cristalaria manual, com uma tecnologia desadequada e do tempo do Stephens, arrastou até ao abismo. O sindicato, encabeçado pelo comunista Sergio Moiteiro deu o empurrão que faltava.

O Presidente da Camara está consciente, e até acredita que à garrafaria não irá acontecer o mesmo, porque "São unidades que do ponto de vista tecnológico estão bem apetrechadas...", mas terão que estar atentos. porque nos tempos que vivemos, as mudanças são rapidas.

(pouco) intelectual disse...

O que acho mais surpreendente não é a noticia, que infelizmente todos os marinhenses conhecem à muito, mas sim ter saído no DN (Diario de Noticias)... da Madeira !!??

Será que teve a mãozinha de alguem que conhece bem a Marinha ?

Ai se nós tivessemos por cá um Alberto João, concerteza nada disto acontecia !!!

Anónimo disse...

Pois não acontecia, não, andávamos era a comer bananas... Deixem-no estar sossegado, para dizer asneiras, já chega o que por cá anda.

Anónimo disse...

O que é interessante é os politicos da praça continuarem a apregoar uma capital do vidro que (infelizmente)já não existe.....para lá do know how que não paga contas ao fim do mes,o que restou deste sector ao fim de 35 anos das belissimas camaras comuno-socialistas? NADA de NADA!!!

Anónimo disse...

Vezes nada e com potencia infinita.

Anacleto Fontaínhas disse...

O anónimo de 2/23/2009 11:08PM, diz:
"O que é interessante é os politicos da praça continuarem a apregoar uma capital do vidro que (infelizmente)já não existe.....para lá do know how que não paga contas ao fim do mes,o que restou deste sector ao fim de 35 anos das belissimas camaras comuno-socialistas? NADA de NADA!!!"

Não calcula o anónimo em causa a alegria imensa que me deu ao deixar este seu precioso comentário!
Eu explico porquê: Como certamente se trata de um fervoroso adepto de algum partido que não é nem 'conuma', nem 'socialista', isso pressupõe que tem fé que a próxima autarquia seja da sua cor (quer seja de uns 'laranjas' fartíssimos de demonstrar obra feita, quer se trate de um quase inexistente CDS-PP ou, até de uma tal 'esquerda caviar' que prega melhor que frei Tomás e que se saiba, até hoje, não se lhe reconhece qualquer obra feita!), e que, essa hipotética autarquia, irá arrancar, não só a indústria vidreira manual, mas também toda a economia marinhense do marasmo em que se encontram!…
Deus o oiça.

No entanto, esse anónimo esquece-se que os problemas da cristalaria não radicam, em exclusivo, nas políticas (ou falta delas) que as nossas câmaras possam ter tido, tenham elas sido de liderança comunista ou socialista.
O problema desta arte (do qual sofreu praticamente toda a Europa industrializada, muito mais do que se possa imaginar - veja-se, a título de exemplo, o caso alemão), reside na falta de adaptação tecnológica e na incapacidade de, em tempo oportuno, os industriais do ofício terem sabido encontrar nichos de actividade que, através de produtos direccionados e de 'design' apropriado, pudessem garantir a sobrevivência das suas empresas ou, mais grave ainda, terem conseguido encontrar fórmulas capazes de ultrapassar os impactos das concorrências que lhes foram chegando por parte de países em que a mão de obra era (é), incomparavelmente, mais baixa.

No nosso caso particular acrescem a tudo isto dois aspectos, relevantes, que, cada um por seu lado e com equivalentes responsabilidades, ajudaram a atirar a indústria vidreira para a lastimável situação em que se encontra hoje.
A saber e resumindo:
a)- O preço excessivo dos combustíveis e das matérias primas.
b)- A existência de um sindicato que não foi capaz de ver para além dos horizontes de uma cartilha político-sindical que se encontra absolutamente desenquadrada no tempo e na substância.
Esta é uma dura realidade que quem está ligado ao sector facilmente reconhece e, por força de razão, os trabalhadores mais do que ninguém.

anarcabe disse...

Caro Fontaínhas, não posso estar mais de acordo com o que disse.

Para simplificar há um senão, não pode sacar culpas de gestão, a quem nunca colocou os pés nos corredores de decisão da CMMG.

Não acredito na "fé" a que se refere, acreditarei numa outra que se traduz em trabalho, ou ainda de outra que é algum estudo de coisas que não podem voltar a ser feitas, sob pena de continuar a MG a ser o parente pobre do Distrito.

Não é necessário ganhar eleições para se intervir, mas é necessário estar por dentro,e, para isso é preciso tempo... com calma vamos lá, vai ver.

Wolverine disse...

Pondo mais uns "cavacos" na fogueira, digo que chegou a haver uma ideia para o sector da cristalaria, mas que os empresários de segunda categoria não souberam aproveitar: o projecto da Vitrocristal.

Pese embora o facto de se terem verificado muitas irregularidades nos processos e de gestão dos mesmos, uma das razões para não ter havido vendas para sustentar o negócio foi a tentativa dos fabricantes aqui da zona terem tentado aldrabar o sistema.

Explicando melhor: a ideia do projecto era criar produtos (peças) com a ajuda de designers aqui da zona e até internacionais e com uma qualidade irrepreensível de modo a criar peças para venda à classe média-alta com boas margens de lucro. Para isso, bastava que existisse um sistema de qualidade nas empresas fabricantes, bons comerciais e boas superfícies de venda.

Abriu-se uma loja em plena Nova Iorque e existiam contratos para venda até na Arábia Saudita, o que potenciava o negócio.

O problema foi quando os empresários, após as primeiras peças com boa qualidade, começaram a tentar impingir peças com defeitos. Essas peças eram rejeitadas pela marca e começaram a vir devolvidas encomendas devido ao elevado número de defeitos encontrados.

Daí até à ruína do projecto foi um passo...

Resumindo, quando houve uma hipótese para revitalizar a indústria, tratou-se logo de tirar proveito por meio de técnicas menos honestas, tão ao estilo português...