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sábado, 15 de novembro de 2008

O ERRO DO CRIADOR


E ao sexto dia Deus criou o homem...
Mas mal o Criador se aprestava para voltar aos céus e aliviar fadiga de tão intensa jornada, sentindo passos atrás de si, virou-se. A correr em sua direcção vinha um desassisado camarista de farta cabeleira branca, acenando freneticamente com algo na mão direita, enquanto a esquerda se enterrava no bolso, como que impedindo que algo se escapasse. “Olhe, se faz favor. Queria entregar o cartão do partido. É que os juvenis já não me dão crédito e tomaram-me por aziago.” E logo Deus se amargou de arrependimento por ter concluído a criação.
Porém, para assombro do próprio Criador, um anjo êufono e titubeante que vagueava por perto sem GPS, tomou-lhe a mão e proclamou em tom grave: “Segue-me camarada, que enquanto a luta de classes precisar de ti, serás um dos nossos. Busquemos o norte magnético!”. Perturbado, o Criador rompeu num pranto inconsolável.

Depois de um Outubro generoso, solarengo, com o astro rei a bailar por entre os ramos semi nus das árvores de folha caduca, entraram pelas frinchas da janela esconsa da minha sala-de-estar os primeiros arrepios de frio, um gélido calafate soprado do grande glaciar em degelo, fazendo recordar aos homens que a natureza acusa sinais evidentes de cansaço, de maus tratos e de sobre-saturação. Pela primeira vez este ano, aconchego três cavacas de sobreiro do Redondo na lareira ainda fria do verão, e acendo o lume com caruma, pinhocas e pequenos gravetos de pinheiro, apanhados na recta de Pedreanes numa tarde de sábado por finais de Setembro. Este é um luxo a que me permito, não tanto por vaidade mas mais por necessidade - sentar-me em frente ao lume num final de tarde a que a mudança da hora já acrescentou noite, lâmpadas de baixo consumo apagadas, um cálice de licor de leite degustado em pequenos sorvos, apenas iluminado pelo lume que baila em labaredas de azul-laranja, exalando resina, labendo as paredes escuras da chaminé - o ambiente que se impõe para um momento de introspecção. Talvez seja isso que falta a muito bom comuneiro cá da paróquia, parar para pensar! Reflectir!
Os acontecimentos patéticos sucedem-se e asseveram a crise de valor acrescentado que mina a nossa desventurada corte de homens d’ estado, o barriguismo prospera, a política decente, tão imprescindível como o cereal para o pão da boca, está mais do que nunca em roda livre, a preciosa alteridade esfuma-se numa prática de tiques comuns de la droite à la gauche, pois o denominador é o comum, insensatez e muito, mas mesmo muito, despudor!
Talvez por isso um duche frio e uma valente coça de bagaço de medronho pudessem pôr cobro às mais que evidentes e previsíveis estratégias já no terreno, gizadas em bolorentas reuniões de comparsas – gestão de silêncios à la carte, rajadas de metralha ao neo-liberalismo que engorda a própria continha, limpeza a seco das consciências e das responsabilidades, fazer crer que a preocupação maior somos nós, e tudo isto revelado apenas num facto, a tremenda incompetência para escolher os melhores. E será que estão disponíveis?
Mas a culpa de toda esta tragédia é sem dúvida da democracia, essa patomina das sociedades civilizadinhas que atribui um cheque-voto-surpresa a cada imberbe eleitor. A culpa é da porra do sofá que amolece o nervo da inquietação. A culpa é da merda da televisão que nos emprenha com novelas. A culpa é dos gajos que lá estiveram. A culpa é dos cicranos que lá estão. A culpa é da testosterona e da bola e do filho da puta do árbitro. A culpa é sempre dos outros. A culpa nunca é minha, tua, ou de outro cabrão qualquer! Neste país pequenino, nunca ninguém é culpado, e porquê? Porque os culpados são sempre uma desculpa para a nossa própria culpa. Fiz-me entender?
Pois que, para terminar, permito-me (permitam-me!), a contra-gosto, um inusitado pedido de desculpas pela severidade deste arrazoado, ela é apenas a expressão da desilusão que sinto ao olhar o lume que baila nesta modesta lareira do Casal da Formiga, mas que não liberta o calor que tanto desejo. Isto, confesso, para além do facto de hoje ter olvidado tomar o comprimido para os nervos. Coisas da andropausa. Mas, para além dessa milagrosa pílula que me põe os ditos nervos sossegados, como poderei eu ultrapassar esta incontida descrença? Poderá ainda restar a fé, dir-me-ão vossas senhorias. Mas, returco eu, como poderei confiar em quem cometeu tamanho disparate ao sexto dia?

14 comentários:

Anónimo disse...

Meu caro Relaxoterateuta,
Depois do seu escrito a propósito da TUMG, este seu 'desabafo' de agora é dos que mais gostei.
Acredite.
Vejo que é consideravelmente mais duro e mais frontal que qualquer dos outros. Sinais dos tempos!
Mas tenho de lhe dar os parabéns pelo desassombro da análise e pela sua clareza.
Como diria o outro: estou consigo, Relaxoterapeuta. Estou consigo. Vá em frente que os políticos e os pulhíticos (e, no caso que nos diz mais directamente respeito - pela proximidade-, os da nossa terra) precisam de ver os ser podres, incapacidades, vaidades e oportunismos colocados bem ao léu.

Anónimo disse...

O mundo ao contrário?


Para um observador desprevenido que olhasse para o que acontece em Portugal e no mundo, a sensação seria a de que estava perante um mundo ao contrário.

Os governos capitalistas intervêm em grandes empresas, chegando a nacionalizá-las, enquanto os senhores do capital advogam a importância do Estado. Estranho!
Em Portugal, Sócrates e o Governo PS esconjuram o «Estado mínimo» e renegam o neoliberalismo, proclamando a sua morte, sempre acrescentando que uma outra opção – o socialismo – continua morta, não vá o diabo tecê-las. Nacionalizam um banco aparentemente contra a vontade dos accionistas e com a oposição ... do PCP. Estranho!
Na realidade, comprova-se a subordinação do Estado aos interesses do grande capital. Se isso é verdade em períodos de menor instabilidade, sem prejuízo dos direitos sociais que os trabalhadores e os povos foram conquistando, especialmente enquanto existiu o contraponto do campo socialista, mais se confirma nas crises cíclicas do capitalismo.
Sócrates ataca a direita acusando-a de tudo querer privatizar. Mas o Governo PS propõe-se arrecadar 1200 milhões de euros em privatizações no próximo ano, incluindo o que resta da participação do Estado na GALP, mais a ANA, a TAP e a REN, entre outras empresas.
No fundamental, são empresas lucrativas e para além disso estratégicas para a economia e a soberania nacionais. Perante isto, afirmam que o Estado não deve sair da área social, mas na realidade os privados gerem cada vez mais áreas na Saúde, na Educação, e até no Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, o Governo entregou à especulação bolsista mais de 20% do capital, registando já perdas de pelo menos 200 milhões de euros.
Enquanto isto, o Governo entrega milhões aos bancos. 20 mil milhões de euros de avales para lhes garantir melhores condições de financiamento, 4 mil milhões directamente para os capitais próprios e a criação de fundos imobiliários para limpar os créditos de risco ou em incumprimento, com isenção total de todos os impostos. E, finalmente, a «nacionalização» do BPN.

A favor dos mais poderosos

Durante meses ou até anos, o Banco de Portugal e o Governo, conhecedores da grave situação da instituição, do seu desequilíbrio e envolvimento em operações fraudulentas, não actuaram.
O Governo justifica agora a nacionalização do BPN como única forma de garantir os depósitos e prevenir efeitos de contágio noutras instituições bancárias, bem como de defender os postos de trabalho.
Na verdade, trata-se da socialização dos prejuízos acumulados pelo BPN, que aliás começou com a injecção nos últimos meses de 435 milhões de euros pela Caixa Geral de Depósitos (CGD) e pelo Banco de Portugal, mais o depósito em Agosto de 500 milhões de euros pela Segurança Social.
Os dados disponíveis apontam, certamente por defeito, para um rombo financeiro de pelo menos 700 milhões de euros, sendo previsível que haja subavaliação do passivo e sobreavaliação dos activos. Isso não impediu que o grupo onde se integra o BPN tenha em 2007, com lucros de 56 milhões de euros (reais ou ficcionados), distribuído quase 30 milhões de euros de dividentos pelos accionistas (estes bem reais).
Apesar disto, o Governo decidiu restringir a privatização ao Banco em sentido mais restrito (BPN S.A.), deixando de fora o resto do grupo Sociedade Lusa de Negócios (SLN), e o BPN S.G.P.S., com importantes activos, incluindo a maior parte da área seguradora. Para além disso, os postos de trabalho são cerca de 1700 na parte nacionalizada e mais de 6500 no total do grupo o que denuncia a hipocrisia do argumento da defesa dos postos de trabalho. Lembre-se ainda que o Governo já garantiu em geral os depósitos até 100 mil euros em todas as instituições bancárias, pelo que não é isso que determina esta intervenção.
O que isto significa é que o Governo deixou aos accionistas do grupo SLN, no fundamental os mesmos do nacionalizado BPN, a parte mais sã e assumiu para o Estado a parte podre. Significa ainda que o Estado terá de injectar os recursos em falta, que vai tirar ao Orçamento do Estado ou à CGD, para depois provavelmente privatizar, em bloco ou em parcelas.
Prevê-se ainda a indemnização dos accionistas, mesmo dos que sejam condenados por fraude ou má gestão. Para o Governo, aqueles que são responsáveis pela descapitalização do Banco, que leva à intervenção do Estado, devem ser indemnizados. E se sofrerem sanções pecuniárias, a indemnização servirá para as pagar no todo ou em parte.
Comprova-se assim que esta operação tem tanto de nacionalização quanto tem de socialista a política do Governo PS... Quando um punhado de privilegiados continua a acumular a riqueza, enquanto o povo vê a sua vida cada vez mais difícil, mundo está de facto ao contrário. É preciso transformá-lo!

Bernardino Soares (Avante)

Anónimo disse...

Parece que as jornadas alentajanas fizera mal ao sr. palrador. As laranjas deviam estar azedas...

Anónimo disse...

Ou senhor Relaxoterapia, duma coisa pode ter a certeza, o Dr. Santos está entre os melhores por isso é uma excelente escolha!!!! É o homem certo para uma Marinha em Grande, depois de tanta incompetência ter levado o nosso concelho para as ruas da amargura. O povo da Marinha vai saber escolher!!!!

Anónimo disse...

Como foi possivel o Cascalho optar pelo AA em vez de piscar o olho à direita? Tantas foram as vezes que disseram que contavam com os Jovens do PSD, mas a verdade foi outra, preferiram dar a mão a um homem que precisa do emprego como pão para a boca, um homem que mente, sim mente porque a razão está do outro lado!!!
O PCP preferiu a mentira à
verdade!!! Em 2009 o POVO saberá dar a resposta e finalmente dar a razão a quem a têm!!
Podem ser Jovens, mas são gente séria e que gostam a sua terra e não precisam da politica para viver!!

Anónimo disse...

A bem da verdade, gostava que alguém Me consegui-se dizer qual a data, o local, a hora e quem esteve na tão falada Conferencia de Imprensa que o AA fala, em que afirma que os Jovens Lhe retiraram a confiança politica. Sim a bem da verdade, porque se for mentira, alguém vai ficar mal na fita!!
E já agora gostava que esse Sr. nos disse-se que não sabia das intenções do seu partido em rever a situação da TUMG a quando da votação da extinção da mesma em Agosto07 em reunião de CM?
Mesmo quando um Vereador da Oposição o chama atenção para o facto?
Tantas são as mentiras que quase passam a verdades!!
Espero que os ditos Jovens tenham a coragem de vir a publico de uma vez por todas dizer o que Lhes vai na alma, a bem de todos, porque este homem não pode continuar a mentir desta forma!!CHEGA!!BASTA!!

Anónimo disse...

Vejam só… segundo o comentário anterior o AA é um refinado mentiroso!
Mas, lidaram com ele tantos anos, deixaram-no subir a comandante-em-chefe do PSD cá do burgo, e nunca se deram conta dessa sua veia de 'fingidor'?
Os rapazes são mesmo jovens, caramba e, ao que parece, como jovens que são, não pensam!
Que o Criador nos valha e nos proteja de tanta trapalhada...
Para quando seriedade na política?
Por ventura já se deram conta de que estamos todos a ficar empanturrados, fartos?!

Anónimo disse...

... Ah, e já agora deixem-me dar os parabéns ao Relaxoterapeuta por mais este magnífico texto. E este, como diz acima o Pirolito, clarinho como água!

Anónimo disse...

Concordo plenamente com todo o teor do texto. Algumas pessoas, felizmente poucas, pensam que os "garotos" continuam sp. garotos, mas não, já são homens que sabem o que querem, são inteligentes e até pai de filhos. Arranjem outra, por esta ja esta ultrapassada...

Anónimo disse...

O comentário anterior só pode ser explicado tendo em conta a hora a que foi feito e pressupondo que vem no seguimento duma almoçarada bem regada. Afinal começo a ter alguma pena do Relaxoterapeuta. É que quanto mais claro ele escreve, mais dificil é perceberem o conteúdo do que escreve. A prová-lo está este e outros comentários ao presente post. Quer uma opinião relaxoterapeuta? Desista! Esta gentinha não merece nem o seu esforço nem a sua qualidade.

Anónimo disse...

..."Quer uma opinião relaxoterapeuta? Desista! Esta gentinha não merece nem o seu esforço nem a sua qualidade." J.F. disse.
Muito gostaria eu de saber o que vai na alma do J.F. para recomendar ao Relaxoterapeuta para desistir.
Será sincera a recomendação por, lá no fundo, sentir que os escritos (bem conseguidos) do Relaxoterapeuta, são, por assim dizer, 'pérolas a porcos'? Ou aproveitará ele a embalagem para dizer: Desiste lá o chato, pois sempre será menos um (e dos melhores!) a cortar a direito?
Quem sabe? Talvez só Deus, mas Esse, Esse não perde tempo com coisitas... Ele parece já não o perder com coisas verdadeiramente importantes!

Bem, mas, pelo sim pelo não aqui deixo um outro conselho ao incógnito Relaxoterapeuta: Não desista, homem! Ao contrário, continue é a zurzir-lhes sem dó nem piedade.

Anónimo disse...

EU TAMBÉM ACHO MELHOR O GAJO DESISTIR.........

Anónimo disse...

Queriam!...
Mas ele irá fazer-vos um 'toma'!!...

Anónimo disse...

NÃO VAI NÃO! ELE VAI DESISTIR!.....