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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Veritatis Simplex Oratio

E como qualquer esquadrilhado morredoiro, caí à cama fulminado pela maldita gripe, mas não sem ter apanhado susto de cova! É que os sintomas da maldita influenza revelaram-se após escapadela noctívaga a galinheiro de suspeito famanaz. A convite de compadre Horácio, alternadeiro profissional, pinchando entre a respeitável vidinha conjugal (classe “bodas de prata”) e as prestimosas casas da especialidade, aventurei-me, quase contrariado, a um intercurso “revigorante” - segundo palavras do próprio compadre. “É uma vez sem exemplo Relax!”, garantiu ele. Jesus! O ambiente era abafado, a música era ruim, as galinhas eram de aviário, o perfume era rafeiro e a “chãmpanha” caríssima e ordinária (setenta e cinco euros a botelha!). Salvou a noite uma visão extraordinária e inesperada, de rebenta-riso. Um conhecido cidadão da praça, figura de alta craveira moral, intelectual e filosófica, encharcado em whisky, depenicando entretido e despreocupado o que parecia ser uma loira pernilonga. “Então por aqui?” perguntei eu acercando-me do sujeito. O janota encarou-me, engasgou, tossiu convulsivamente, ruburizou, cambaleou, tombou redondo. A pernilonga desatou aos gritos e desfaleceu por simpatia. “Rais-parta-o-homem que se espicha” pensei antevendo um fim trágico para a minha abordagem. E quando já assustado me preparava para lhe aplicar uma massagem de reanimação cardíaca, umas murraças de punho fechado nas peitaças, o homem recobrou do ameaço e prostrando-se a meus pés suplicou: “não conte a ninguém que me viu aqui, por favor!...”. “Fique descansado, que até melhor oportunidade a minha boca é um túmulo!”, sosseguei-o, guardando cuidadosamente na manga o valioso trunfo, à Luis de Matos.
Felizmente confirmou-se, a influenza não era aviária, era simplesmente ordinária - “ponche quente, pachos de álcool e nada de correntes de ar” prescreveu o doutor das urgências-enquanto-as-há sem olhar para mim. Segui escrupulosamente a indicação do douto e baixei ao leito.
Está claro de se ver que tempo é coisa que não me tem faltado e para sobrepujar o tédio e matar as horas, quase tudo serve. Olha, por exemplo, tenho lido novelas de produção caseira em publicações sem critério. E embora, por norma, os argumentos sejam maus e os actores, fracotes, apresentem evidentes sintomas de acrofilia, tenho-me entretido. Entre outras ando seguir uma cuja estória roda à volta da mentira – um diz que o outro é mentiroso e o outro diz que o um é que é mentiroso. Mas nesta novela adaptada à vida real tudo é inconsequente e chamar mentiroso a alguém parece ser a coisa mais banal do mundo. A suspeita e a mentira são invocadas sem acanhamento e usadas para intoxicar, desinformar e urdir tramas foleiras. No tempo em que a honra era um valor e os homens tinham carácter, estas questões eram tratadas a punho, na praça principal, junto ao pelourinho. Mas nós por cá como não temos pelourinho, vá lá, que por uma vez sejam verticais e travem-se de razões sob o olhar atento do busto do Guilherme Stephens. Mas por favor não nos deixem baralhados em relação a quem incorporou o espírito do Pinóquio.
Enquanto isso, eu e mais quantos mil, lá vamos fungando, enxugando o pingo ó nariz e chuchando rebuçados do “Dr. Baiar" para acalmar a irritação.

3 comentários:

eh, eh, eh, eh... disse...

Este palerma já não diz coisa com coisa.

Anacrónico disse...

É um fartar vilanagem. Quando apanham um pobre moribundo, os abutres volteiam, volteiam sempre, na perspectiva do festim que antecipam…
O que este blog foi e no que nele se tornou!
Toda a mediocridade de quem tem capuz enfiado no recipiente de cérebros lavados, se rebola de riso alarve!
Que tristezas!! A deste decrépito espaço, que foi de debate de ideias e de crítica mordaz, e a do espectáculo que os seus detractores fazem gala em, despudoramente, demonstrar...
Que venham melhores dias são os meus votos.

Relaxoterapeuta disse...

...alto aí, caro Anacrónico, que se há coisa que eu não estou é moribundo! (e penso que o resto do pessoal também não o estará, embora desse jeito a muito boa gente)