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quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

E Covelinhas lá tão longe...

“Já que a alma está perdida, negrinha que nem um carvonito pronto a entregar-se ao demonarca, a ser lançada no aqueronte flamejante do codenamento, pois castigue-se o corpo no triclínio, com lautos manjares, assaduras, fritaduras, esturgídos, iguarias conventuais e generosos néctares”. Às malvas com as pílulas de salmão e com o Enalapril 20 mg, o terror da hipertensão.
E foi sob o signo da boa mesa e da aconchegante hospitalidade com que a família Correia Faria sempre me acolhe, que rumei a Covelinhas, uma idílica e acolhedora aldeia na margem direita do Douro, para passar as Festas.
Contei os dias da demanda - “ora, um para ir (não conta!), mais um para vir e cinco para pernoita” – seis dias fora, dividi por dois e juntei três pares de peúgos e igual número de cuecas Gitanes no fundo do pequeno saco de viagem - direito e avesso, direito e avesso, direito e avesso... que a coisa não está para luxos e o banhito diário sempre poupa na roupa! Por descargo de consciência preveni-me com mais umas “truces” Abandeirado (a estrear!) para o caso da visícula dar de si e uma inoportuna crise intestinal desarmar-me em pleno reveillon. Juntei a escova de dentes, uma descartável da Gillette e dois ou três livros. Está a trouxa emalada, p’ra Covelinhas a toda a mecha.
Foram cinco dias memoráveis naquela aldeia quase comunitária, onde ainda, praticamente, tudo se partilha. Não há coutos, nem coutadas, nem feudos. Há gente igual entre iguais. Até Lucinda Correia Faria, a minha anfitriã, mulher de incontáveis talentos que a afamaram, entre os quais a mestria de transformar os “frutos da terra” em sabores do céu, há muito que passou de “simples mãe da família Correia Faria” a património da aldeia! Que inveja!
Para perder as peneiras bastaram-me trezentos e tal quilómetros de regresso e uma placa a indicar “Marinha Grande”. Aqui, ao contrário de Covelinhas, há campeões da verdade, da razão, da democracia, do anti-fascismo. O sectarismo doentio que há muito adoptámos como cartilha, turva-nos a mente e faz-nos esquecer o essencial. A generosidade e abnegação colectivas dos que lutaram e lutam por uma terra com grandeza e alma, feitos heróicos em nome de valores e princípios defendidos com a própria vida, são transformados em bandeiras de outras lutas menores.
Enquanto não olharmos para o futuro com a mesma vontade colectiva de vencer e de honrar o passado, nunca chegaremos aos calcanhares da pequena aldeia de Covelinhas, na margem direita do Douro, a dois passos do Peso da Régua.



PS. Aproveito a deixa para um recado. Também eu não sei o que se passou com o “apagão”. Embora prejudicado pelo facto (perdi toda a colecção de textos), nunca exigi qualquer explicação ao Arrebispo (ao que sei, o único que dispõe de poderes para administrar o blog), nem me parece que isso seja muito relevante. Por isso o meu contributo continuará até ao dia em que me sinta a mais. Até lá, respeito mas não aceito, os que aqui deixam comentários sobre falta de dignidade, falta de coragem, má condução do Fórum, medo, desvio dos seus objectivos, etc. Num blog com estas características (fórum de discussão) o importante é o contributo de todos, com as opiniões de cada um. Ao que parece a única preocupação de alguns é confirmar suspeitas, sangue, portanto. E se não houver sangue?
Eu cá por mim reconheço o mérito que este blog teve de se abrir à participação de todos (incluindo a postagem directa) e de dizer coisas e suscitar discussões em tom mais ou menos sério. Por isso dou a cara em nome dos que aqui escrevem, de forma solidária. Cada um fará o que achar melhor, mas seria desejável mais contributos para que não pudéssemos dizer que venceram os “incomodados”. Contributos de todos...

6 comentários:

Tinini disse...

Belo texto. É pena que talvez não possa ser entendido por alguns dos “incomodados” a que faz referencia na nota final. (Repare no cuidado para não confundirem com PS). Todos os sectarismos são grilhetas, voluntárias ou impostas, de quem não entende ou continua a ter medo da liberdade.
À margem, como não sou de intrigas, digo-lhe já que lhe “invejo” a sorte de ter amigos como esses de Covelinhas e os prazeres da gula e da alma que denunciou. Aliás, é recorrente, fez idêntica descrição há uns tempos, dessa feita na calma do Alentejo. Ao menos que tenha mesmo sido obrigado a dar uso às “truces” que, lampeiro e avisado, introduziu na “valise”.
Não sei se estou tão de acordo com a sua análise ao “apagão”. Sem falsos moralismos e sem sangue, uns e outros dispensáveis, nós, comuns bitaitantes, talvez merecêssemos uma pista. Mas, pronto, aceitemos o critério da Altíssima Direcção, a quem devemos, e eu em particular, o privilégio destes diálogos.
Obrigado. Que nunca lhe doa a mão.

Anónimo disse...

o sr relaxado ainda não percebeu que já ninguém lhe liga, muita parra e pouca uva.
cuide-se homem, que ainda gasta o diccionário todo a dizer alarvidades e a pavonear-se.

Tinini de novo disse...

Então, adaptando, que vivam os medíocres, os parvos e os pobres de espírito que é deles o Reino dos Céus!
Então, São Pedrocas, Hidráulico Oliveira, São Rosas, Vidreirossauro, Cura Araújo, Robalo, e todos os outros que para aqui verteram reflexões, apoios e críticas? Então, ganha a estupidez?

Apetece-me citar de novo José Gomes Ferreira

Oh pastor que choras
o teu rebanho onde está?
Deita as mágoas fora,
carneiros é o que mais há
uns de finos modos
outros vis por desprazer...
Mas carneiros todos
com carne de obedecer.
Quem te pôs na orelha
essas cerejas, pastor?
São de cor vermelha,
vai pintá-las de outra cor.
Vai pintar os frutos,
as amoras, os rosais...
Vai pintar de luto,
as papoilas dos trigais

Pirolito disse...

Tenho de dizer a este sr. anónimo (Jan.18) que não concordo com ele nem sequer um bocadinho!...
Este é daqueles comentários que traduzem uma certa (grande) alegria que vai por aí numas certas hostes!...
Como diz o Tinin é a mediocridade ao poder!

São Pedrocas disse...

Olá sobreviventes deste Fórum. Deus vos salve.

Permitam-me uma saudação muito particular ao Relaxoterapeuta de quem já tinha saudades de ler os aprimorados textos que produz. E este não foge à regra!...

Mas vamos por partes:
1 – Meu caro Relaxoterapeuta, não imagina as vezes sem conta que eu tenho pensado no bom que seria que esta nossa Marinha Grande fosse como é Covelinhas!
Nos meus passeiozitos por este nosso Portugal tenho encontrado terras e comunidades que, creia, me fazem inveja. Como eu lhes admiro a simplicidade de vida e o espírito de entreajuda existente nas suas gentes!...
Sim, eu sei que não há comunidades perfeitas (longe disso!...), até porque o tempo da minha mais acesa ingenuidade já lá vai há muito!. Mas, em algumas dessas comunidades há algum de mais saudável, de maior pureza entre as pessoas quando comparado com o que se passa na nossa Marinha Grande!...
Como vê, estou inteiramente de acordo consigo quando diz que “enquanto não olharmos para o futuro com a mesma vontade colectiva de vencer e de honrar o passado, nunca chegaremos aos calcanhares da pequena aldeia de Covelinhas, na margem direita do Douro, a dois passos do Peso da Régua.”

Já o disse em tempos e volto a afirmá-lo hoje, sinto que na nossa terra há demasiado fundamentalismo ‘clubístico’ o que nos embute a capacidade de entendimento e de diálogo. E isso impede que este nosso concelho evolua ainda mais… (se é que agora ele não se encontra mesmo numa perigosa fase de involução!...).

2 – Por tudo o que nos trouxe no seu texto (além da beleza com que o escreveu) fico-lhe grata e não posso estar mais de acordo com o Tinini quando ele nos diz que estamos a dar demasiado espaço à parola mediocridade que vai esfregando as mãos de contente pela modorra que se apoderou deste Fórum que, infelizmente para todos nós, já conheceu melhores dias.
A comprovar o que aqui digo leia-se e anote-se o ‘exemplar’ comentário que um tal anónimo defecou sobre o seu texto.
O pobre nem sequer reparou que estava a criar um paradoxo! Onde é que no seu texto estão as “alarvidades e o pavonear”? Na escrita escorreita? No espírito criativo do texto? Como vejo que por aí não deve ser encontrado o motivo nem a explicação para a atoarda, tenho de ficar de acordo consigo quando afirma que a pouca saúde deste Fórum será a vitória dos ‘incomodados’…

3 – Claro que não posso deixar de estar de acordo consigo ainda quando afirma: “eu cá por mim reconheço o mérito que este blog teve de se abrir à participação de todos (incluindo a postagem directa) e de dizer coisas e suscitar discussões em tom mais ou menos sério.”
Perfilho a ideia, mas também tenho de dar razão ao Tinini quando nos diz que essa coisa do vírus e do apagão merecia ter tido por parte dos promotores do FLC uma palavra de esclarecimento, como, de resto o Anacrónico já afirmou algures e em devido tempo.

4 – Quanto à minha modesta participação neste espaço, ela não estará em causa se eu chegar à conclusão que os princípios de liberdade e de voluntariedade que aqui estiveram presentes, durante muitos meses, não são (não foram) postos em causa.
A única condicionante que se me coloca é uma crescente falta de tempo e, se hoje aqui estou a deixar estas duas linhas, é porque com este seu ‘post’ e com o comentário interrogativo do Tinini, eu entendi que deveria vir dizer olá e que estou viva e me recomendo.

São Rosas disse...

Confesso que há muito não visitava este nosso forum marinhense, um espaço onde nos cumprimentavamos de forma cordial e opinavamos de uma forma simples com umas pitadinhas de bom humor os "bitaitantes" que por aqui passavam.
É que meus amigos,deixou de ter interesse calhandrar as novidades do Largo, que passaram a ser ofensas de mau gosto que em nada dignificaram quem as escreveu e afastaram aqueles que não apreciam guerrilhas e insultos.
Sinceramente a minha participação foi muito pequenina, mas reconheço conscientemente que tentei ser imparcial nas opiniões e reflexões, fugindo á agressão politiqueira que não aprecio de todo.
Agradeço ao Tinini ter dado pela minha falta num conjunto de colaboradores de tão reconhecida qualidade.
Prometo voltar e marcar a presença se o ambiente não estiver poluido...e se tiver um graozito de inspiração.