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terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Carta semi-aberta ao Ilustríssimo


Caro Ilustríssimo,


Permita que tome alguns minutos do meu precioso tempo para dirigir a tão salvífica e prezada figura, que a mandato do povo tomou em suas mãos o pesado fardo da condução dos destinos deste lugar da história, algumas palavras ponderadamente maturadas. Mas para além do conteúdo, também ponderei a forma e decidi-me por uma carta semi-aberta em virtude, da pouca apetência que V. Exa. demonstra para esta forma de comunicação a qual, revela também V. Exa., preferir ignorar por falta de importância, e depois porque a abertura (da dita carta) revelava-se demasiado escancarada e oferecida o que, convenhamos, nestas coisas da “sedução” entre eleitores e eleitos, acentua o destempero e retira o picante. Prefiro por isso que a desbague nas entrelinhas, se porventura, após filtrada por um qualquer poderoso “anti-virús”, anti-derrapante e hipoalergénico, o sacro-santo comité para a pureza da informação lha facultar.

Antes de mais, queria dar conta a V. Exa. duma particularidade que temos em comum – ambos não votámos em si – o que em nada diminui as expectativas que legitimamente depositámos no seu mandato já que a democracia é para ser vivida, não é propriamente um estado de alma. A expectativa de V. Exa., em relação a si mesmo, resulta da auto-estima que revelou ao candidatar-se, mesmo sabendo que não podia sufragar-se. A minha, resulta da ausência de qualquer reserva mental em relação a quem, de forma desinteressada, decidiu dar de si o melhor ao serviço dos outros.

Posto que está lavrada esta minha declaração de interesses, permita V. Exa. que formule uma constatação.
Quando o Ilustríssimo decidiu coligar-se à direita para governar em maioria (“livrai-nos Senhor de todo o mal!”), estranhei o facto e questionei-me: como poderão dois partidos com projectos políticos tão diferentes, funcionar em harmonia? Pelos vistos nada mais simples. A conclusão/constatação só a vislumbrei, por mea-culpa, confesso, após um ano de mandato e um "rol de merceeiro" sobre a obra edificada - é que de facto nenhum dos dois tem qualquer projecto. A minha visão turvada e eivada de intrincados e complexos conceitos relativos à assumpção do poder, conferido pelo povo e exercido em proveito deste, projectando no futuro os seus legítimos anseios, não me deixou perceber com clarividência a mais simples e crua das realidades: o poder não é instrumental é antes funcional, a estratégia não existe tendo sido substituída pela cabotagem – o importante é não perder o pé mesmo que se perca a oportunidade, a prioridade vai para o remanso, aguardando quedo e calculista o erro do adversário. Mas não fique sentido porque não é o único.

Eu sei que o adversário caiu numa letargia indolente e preocupante, que continua sonolento e marralheiro a jogar na mesma estratégia calculista do erro do outro. Eu sei que uma conjuntura destas não obriga a esforços e aplicação redobrados. Eu sei que tudo caminha sem que ninguém pronuncie um “aí”, mas no fundo, no fundo, quem perde com tudo isto? A nossa terra! Um ano perdido não significa pouco, significa a perda irreparável de 365 dias gastos sem se antecipar o futuro, sem se decidir, sem se discutirem ideias generosas, mais preocupados em demonstrar que os outros são maus e que lá p’rá frente tudo se há-de resolver.

Ilustríssimo, sem qualquer carga simbólica e despojado de qualquer pudor irrelevante, deixe-me que lhe fale ao coração. É que tão preocupante quanto o que atrás ficou dito é a falta de confiança que se transmite, a falta de alegria, de energia, de esperança, de vontade, de coragem, de convicção num projecto em que se acredita, num sonho, no sonho, na utopia - na utopia, porra! Onde está o sonho camarada? Onde está? Que é feito do nervo? Que é feito da fulgência? Onde está a vontade de mudar? Onde está camarada? Será que sucumbiu à curvatura da vida? Será que não merecemos todos um pouco mais? Mostre-me que estou errado, mostre-me que quer fazer desta terra uma terra de homens e mulheres felizes, de gente solidária, de gerações que se orgulham do seu passado e que se querem projectar no futuro! Convença-me, homem! Convença-me que o 18 de Janeiro, o 25 de Abril, o 1º de Maio não foram um acidente de percurso! Convença-me a votar em si nas próximas eleições, convença-me, porra! Porque se o fizer, estou certo, é porque deu a esta terra o rumo e o alento que ela precisa, o amanhecer que todos ansiamos vislumbrar.


De V. Exa. atentamente, subscrevo-me com elevada estima e consideração;

3 comentários:

Anónimo disse...

Bravo!!!!

Cura Araújo disse...

Bons dias/Boas tardes/Boas noites

Ora aqui está um belo 'sermão'... só é pena é que esta dita 'carta' não vá chegar ao devido destinatário e acabe este por ser mais um 'sermão aos peixes'!

Meu caro Relaxoterapeuta... o Senhor fez o diagnóstico, identificou o mal, prescreveu o receituário apropriado... mas o doente, esse não quer ver ou não quer saber se está doente ou não. Prefere morrer do mal, mas de pé diante da sua intacta 'moral política', a tentar a cura que diz o pode matar e remeter ao ostracismo e ao exílio partidário.

Mãs não deixe o meu Caro Relaxoterapeuta de continuar a sua missão, que mais não é que tentar salvar vidas. A deles (ainda que pouco mereçam!) e as nossas!

Enquanto isso eu vou rezando pelas nossas almas: «livrai-nos, Senhor, de todo o mal».

Àmãe!

São Pedrocas disse...

Parabéns Relaxoterapeuta.
Este é um 'post' que eu própria gostaria de ter escrito...

Mais claro não se pode ser!

Parabéns e continue a oferecer-nos trabalhos deste nível e qualidade. A comunidade agradece-lhe. Digo eu.